• Alice VieiraAlice Vieira

    Sempre fui uma pessoa cuidadosa com a saúde, mamografias todos os anos, etc. Mas naquele dia o médico olhou para a minha mamografia com ar muito sério e pegou logo no telefone.  “Estou a ligar para o hospital porque tem de ser operada já.”  Marcou tudo, e depois explicou-me que a mamografia revelava que tudo estava muito mal, não podia esperar muitos dias. Combinámos tudo, e só no fim é que ele exclamou : “Ó diabo, e agora como é que vamos dar a notícia ao seu marido?”
    Pois.
    Sempre tive fama de aguentar tudo.
    Passada uma semana estava a ser operada.  Como nunca gostei de fazer espectáculo com as doenças, não disse a ninguém. Ou seja: disse em casa, claro, e no “Diário de Notícias” porque precisei de pedir baixa de um mês.
    Uma semana depois, tive alta—e logo nesse dia, antes de ir para casa, passei pelo jornal a ver se estava tudo a correr bem sem mim… E a baixa de um mês, reduzi-a logo para 15 dias.
    Radioterapia, quimioterapia, eu vomitava que nem me aguentava, e às vezes dizia para o meu marido “hoje não vou trabalhar”, mas ele dizia “vais e vais já” — e eu chegava ao jornal e passava-me tudo. Porque rapidamente aprendi que ficar em casa a pensar na doença é a pior coisa que se pode fazer.
    Depois de terminados os tratamentos, o médico chama-me e diz que o cancro estava muito espalhado, tinha sido feito o possível, mas aquilo era mesmo um caso muito complicado. Eu, que não sou de rodeios, perguntei logo” e quanto tempo de vida me dá?”.  Ele começou por dizer que era difícil responder a isso, que mais isto e mais aquilo, mas lá acabou por admitir: “dois a três anos…”
    “Vão ser os melhores anos da minha vida”, disse-lhe.
    Despedi-me do jornal, e nesses anos viajei, andei por toda a parte, fiz o que quis…até que os anos foram passando, dois, três…cinco…seis… achei que era mais que tempo de voltar ao trabalho –e já la vão 31 anos.
    Claro que deixou algumas sequelas : naquele tempo, apanhava-se a  rádio no peito todo, e com o andar dos tempos havia quem desenvolvesse aquilo a que se chama a” hiperfixação do rádio”…Foi o que me aconteceu : há cinco anos um tumor no esterno ,não operável, e que tem de ser vigiado.. Se às vezes cresce um pouco, faz-se mais radioterapia (agora é milimétrico o espaço que a apanha…) e tudo vai ao lugar.
    Por isso sou doente crónica do IPO… O que não me aflige.
    Tinha eu sido operada aí há uns oito ou nove anos, a Henriette de Almeida Lima, então presidente da Liga, pediu-.me para eu falar da minha experiência num congresso sobre o cancro. Foi a primeira vez que falei nisso em público… E não tiveram conta os amigos que me ligaram para perguntar: “ah, foste operada, estás em casa? Podemos ir ver-te?” E eu: “poder, podem, mas já fui operada há oito anos” …
    Na altura em que eu fui operada foram também operadas a Simone e a actriz Manuela Maria que, tal como eu, só muito tarde falaram nisso. E então vá de nos chamarem para todas as televisões. Nós ríamos e eu dizia “lá vão as cancerosas de serviço…”
    E lembro-me sempre de a Manuela Maria dizer: “o maior amigo do cancro é o medo”. Por medo, as pessoas não vão ao médico, por medo, as pessoas não assumem os primeiros sintomas, por medo as pessoas não fazem os exames necessários.  O medo é o pior de tudo.
    E outra coisa dizíamos as três quando nos chamávamos para esses programas: “nunca nos passou pela cabeça que íamos morrer”.

    Nunca, mesmo.

  • Marta MachadoMarta Machado

    Existe sempre uma lógica para tudo o que acontece no Universo!
    16 Maio 2010
    Acordei decidida a superar um medo terrível, um pavor inconsciente de ter que falar em público.
    Faltavam 48 horas para estar frente a frente com uma plateia de cerca de 300 pessoas, algumas com longos anos de experiência na área.
    Estava no mês de Maio! Sempre adorei o mês de Maio, os dias são maiores, celebra-se o dia da mãe, o aniversário do meu amor e do meu casamento, enfim… o mês de Maio é um mês desafiante!
    No final do dia, ali estava o meu amor à porta do meu trabalho… “o que estaria aquele rapaz ali a fazer?”
    Descarregou tudo o que estava dentro dele, tudo o que vinha a acumular no caminho.
    – Vem comigo! – Tens um Linfoma! – Vais ser internada! – Vamos falar com os teus pais!
    Todas as frases faziam eco na minha cabeça, o vento continuou a soprar mas as nuvens já não se moviam e uma certa vergonha e tristeza tomou conta do meu corpo!
    Tinha que escolher naquele momento, se queria enfrentar, não uma plateia com cerca de 300 pessoas, mas sim um linfoma com alguns centímetros e vencer o medo terrível, não de viver, mas de ir vivendo, um dia de cada vez, com todas as limitações.
    Agora sorrio de cada vez que falo em público! Não sou melhor oradora por ter vencido um cancro, mas o valor que atribuo às coisas é diferente e isso faz com que saiba exatamente a importância de cada momento.

    Curiosidades
    Lema de vida antes e depois do linfoma: “Vamos indo e vamos vendo”;
    Antes da doença era uma pessoa alegre. Durante a doença? Conferir em baixo 😉

    Mensagem
    Hoje, olho para a outra margem do rio e vejo-te, estás sorridente mas assustada. O rio parece ter uma corrente suave, mas ambas sabemos que não é bem assim. Tens que aguardar o momento certo para fazer a travessia. Estou do lado oposto do rio e garanto-te que vale a pena saber esperar. Estamos juntas!

  • Teresa BeicinhaTeresa Beicinha

    A minha história com o cancro. O meu nome é Teresa Beicinha, tenho 53 anos sou divorciada, tenho 3 filhos. Sou consultora de imagem, formadora, blogger, organizadora de eventos, coach motivacional. Em Agosto de 2017 foi-me diagnosticado cancro de mama invasivo tipo II. Comecei com uma dor no peito esquisita e forte, fui ás urgências 2x, os médicos diziam sempre que não apalpavam nada e que não era nada. Eu insisti e pedi uma carta para entregar no meu médico de família a dizer que era uma pessoa de risco porque tenho cancro de ambas as partes da família. Irmãos dos meus pais já morreram de vários tipos de cancro. Eu própria já tinha tido um cancro de pele antes deste numa perna mas fui só operada não precisei de fazer quimio nem radio. Acabei até por ter outro nas costas depois de fazer radio para este cancro de mama. Assim que fiz mamografia detetou-se logo uma série de tumores pequenos e na biópsia confirmou-se. Este processo foi complicado porque acabei por o passar sozinha porque não tinha marido nem namorado, tinha pais com 87 anos de idade que acabei por cuidar durante a minha quimio tiveram avc e aneurisma á minha frente em casa. A minha irmã foi operada â tiroide na mesma altura. Os meus sobrinhos tiveram que cuidar da mãe. Eu tive 2 filhos que me apoiaram como puderam. O mais novo ajudou a cuidar de mim e dos avós também. O do meio era militar na altura foi comigo fazer os pensos levou-me á operação a minha irmã foi-me buscar depois antes de ser operada. Mas não lhe deixavam dar-me o apoio necessário. O mais velho não fala comigo por questões familiares e financeiras. Nem mesmo com o cancro. Tive 3 amigas que foram comigo 1 á 1 consulta de oncologia e á 1 quimio. Outras 2 foram comigo a 2 quimio. De resto fiz tudo sozinha. Biópsia, consultas, exames, tratamentos de quimio, radio, imunoterapia. Nunca cruzei os braços e nunca perdi a minha fé que eu ia vencer e sobreviver. Tenho um filho bipolar com 19 anos de idade que vive comigo e também tenho cuidado dele. Descobrimos no ano passado durante o meu cancro. Através da minha psicóloga que o encaminhou para um psicólogo e um psiquiatra e fizeram exames afinal não era só uma depressão. Não é fácil, mas não é o fim do mundo. Eu sempre fui uma guerreira. Todos podemos pode vencer o cancro. Pensa positivo. Fala com Deus. Vai ver e ouvir o mar. É muito bom. E importante. Sinto-me bem e em paz, em frente ao mar. Música e dança também é muito bom porque limpam a tua alma. Eu sou muito ativa por isso nunca parei. Fui convidada para contar a minha história em diversos eventos e projetos. Organizar eventos para mulheres com cancro de mama dentro e fora do meu hospital. Criei um blog para partilhar a minha historia e ajudar outras mulheres. Blog de mulheres com cancro de mama no facebook. O que não te mata torna-te mais forte! Nunca te esqueças disso! Cuida-te!

  • Carla CatarinoCarla Catarino

    “ENTREI EM CHOQUE!
    Quando a médica me diz que a partir de agora teria de ter muita força, ser muito forte e estar bem acompanhada porque o que aí vinha não seria fácil...hospital?! IPO de Lisboa, sim porque outro para mim não faria sentido.
    Depois de há 2 anos atrás acompanhar o meu pai neste percurso Oncológico mas infortúniamente sem sucesso e há 2 meses atrás ser intervencionada com uma Histerectomia total para prevenir o BICHO e ainda estar em franca recuperação, descubro uma noite (enquanto mudava a roupa para dormir) um caroço bastante proeminente na mama esquerda. Na semana seguinte e após exames médicos, já estava no IPO a fazer as biópsias com o Dr. José Carlos Marques onde se confirmou o pior.

    Tratamento: Quimioterapia de imediato porque já tinha metásteses no braço então a urgência é reduzir e localizar o BICHO para que não se espalhe mais.
    Efeitos colaterais: todos!
    Imunidade: em baixo (glóbulos brancos), injeções na barriga após cada sessão de Quimioterapia para os levantar (muito mau).
    Resultado: um ÊXITO!...quase irradiado na totalidade.
    Próximo passo: Cirurgia...ainda me encontro em recuperação mas está a correr dentro da normalidade.
    Para rematar: Fisioterapia ao braço (foi feito um esvaziamento dos gânglios) e, Radioterapia (para não deixar vestígios).
    A minha batalha ainda não terminou até porque irei ser seguida através de consulta de Risco Familiar onde irei juntamente com meu irmão e filho, fazer exames de prevenção...

    E ATENÇÃO MULHERES em cada 10, 8 têm Cancro de mama (independente se têm conhecimento dele ou não), palavras emitidas por médica do IPO.”

    A luta continua!

  • MARIA JOSÉ PRISTAMARIA JOSÉ PRISTA

    Foi-me detetado o cancro do intestino (cólon descendente) através de uma análise às fezes em 10.7.2018 e confirmada com uma colonoscopia em 30 Julho.
    O médico que me fez a colonoscopia informou-me que teria de ser operada urgentemente.

    Perguntei-lhe se era um cancro?
    E a resposta foi sim.Fiquei muito calma, não entrei em pânico.

    A minha filha que estava presente tratou logo de ir no dia seguinte com o relatório à Fundação Champalimaud marcou consulta para 2 dias depois. Fiz exames nesse mesmo dia e fui operada a 20 de Agosto.br> Foi-me retirado o tumor maligno que era grande, e 40cm do intestino.

    “ Pensei agora é enfrentar o que vier pela frente e vencê-lo “. Não sei porquê, mas sempre estive muito calma e serena.
    Quando fui à consulta após a operação, e, o médico me deu os parabéns que estava tudo bem. “Não há metástases e não é necessário fazer quimio nem rádio”.
    FOI UM GRANDE ALÍVIO.
    Fui sempre muito apoiada pela família e amigos o que nestes momentos é muito importante.

  • GONÇALO DINIZGONÇALO DINIZ

    Quando descobri que tinha cancro, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: Porquê a mim? Sendo que a segunda pergunta apareceu logo de seguida: Porque não a mim? Se eu tenho cancro é porque sou forte e vou vencer!
    De seguida bateu um desespero enorme com imensas perguntas mas a que mais me incomodava era: e agora?
    Pouco dormia, acordava de 3 em 3 horas, felizmente tive o apoio da minha mulher, família e amigos.
    Passado um mês tive a maravilhosa noticia que ia ser pai, com esta notícia decidi desligar-me do cancro, tive a certeza que ia vencer, acreditei que sou mais forte que o cancro e que ia ficar curado!
    Quando comecei o tratamento de quimioterapia levei sempre a minha boa disposição e o meu positivismo, embora não fosse fácil estarmos ali num cadeirão 8 horas de seguida. Felizmente, existe internet e ajudava a passar o tempo, era uma forma de estar conectado com o mundo.
    Tive de me agarrar à vida e através da mente e da alma consegui curar-me. O corpo está doente, mas está a receber tratamento para a doença e nós temos de tratar da nossa mente.
    Durante o tratamento só queria ouvir coisas positivas, afastava-me das conversas mais negativas. Sentia pena no olhar das pessoas e não está correto, as pessoas têm de olhar para nós não como doentes mas sim como alguém que está em recuperação e que está a precisar de se salvar.
    Quando terminei os tratamentos, veio a confirmação através dos exames, estava curado! Foi a melhor sensação do mundo, saber que vencemos e que era um sobrevivente.
    A grande arma que temos é a prevenção, se eu descobrisse a tempo, provavelmente não teria de fazer quimioterapia. Não havia motivos de alarme, supostamente comia bem e fazia desporto, não deveria haver risco. Estava enganado. Hoje em dia alterei a minha alimentação e posso afirmar que tenho um corpo alcalino, devido à alteração da alimentação.
    Deixo a seguinte mensagem:
    Acreditem na cura e na Vossa força, assim, vão ficar curados! Muita força interior e é a cabeça que manda!

  • GONÇALO SILVAGONÇALO SILVA

    Pior notícia no momento mais feliz da minha vida.

    Depois de alguns dias com dores no estômago e após muitas chávenas de tisana, para as aliviar, fui fazer um “check up” em Fevereiro de 2014, fiz um batalhão de análises e continuei a desfrutar da gravidez do meu primeiro e único filho, cujo nascimento estava programado para meados de Março. As dores no estômago persistiam e as comichões na palma dos pés e das mãos eram cada vez mais fortes.

    No início de Março, estava com a minha mulher, Lúcia, à porta do Hospital Charité em Berlim para a última ecografia antes do parto, quando recebemos um telefonema da gastroenterologista, dizendo que os resultados haviam chegado e era preciso que eu fosse ao consultório o mais rapidamente possível. “Onde está?”, perguntou-me ela. “Estou no Charité, na consulta de obstetrícia da minha mulher”, respondo com ansiedade. A médica de imediato me diz: “Vá imediatamente às urgências que eu envio-lhes por fax o resultado das suas análises.”

    Os níveis do pâncreas e do fígado estavam 10 vezes mais elevados do que o normal. Fui imediatamente internado para exames e a primeira impressão dos médicos foi a de que poderia ser uma pedra na vesícula, mas o director clínico quis ter a certeza, fiz mais umas endoscopias e lá deram com um tumor na “cabeça” do pâncreas e com metástases na 6ª secção do fígado.

    Foi uma facada gigante no coração e o que prometia ser a melhor fase da minha vida transformou-se num pesadelo. E assim começou a minha odisseia contra o tempo.

    “Então vamos lá fazer planos para esta fase negra das nossas vidas”, pensei. Então, decidimos que seria bom antecipar o parto um pouco e atrasar a operação alguns dias para poder testemunhar o nascimento do Tiago e os seus primeiros dias de vida, que talvez fossem os meus últimos: uma percentagem elevada de pacientes não sobrevive à operação. Esta notícia e as outras foram todas recebidas com grande mágoa e muitas lágrimas.

    No dia 12 de Março assisti ao parto do Tiago ao lado da Lúcia e vivi o momento com muita intensidade e gozei o pós-parto a 100%. No dia 21 de Março dei entrada no Hospital Charité às 8:00h para ser operado às 11:00h. Estava em estado catatónico devido à angústia de não saber se iria acordar e ver de novo a Lúcia e o Tiago. Depois de algumas horas de operação acordei num quarto cheio de máquinas e tubos. “Pareces um polvo”, disse a Lúcia olhando para a quantidade de tubos que saiam do meu corpo. As dores eram mais que muitas porque a epidural não tinha sido bem administrada e os outros analgésicos também não faziam grande efeito. “A operação foi um sucesso. Erro zero!”, exclamou o cirurgião quando me veio ver pela primeira vez. Tudo o que estava “contaminado” fôra extraído completo e nenhuma ramificação ficara para trás. Da lista de “abate” constavam a “cabeça” do pâncreas, o duodeno, a 6ª secção do fígado, a vesícula biliar e 25 gânglios. Em compensação, ganhei uma cicatriz com a forma do símbolo da Mercedes Benz que me cobre o abdómen. Tive 2 semanas internado, com muitos contratempos, incluindo 1 semana de noites em branco e várias alucinações devido aos analgésicos e muitas, muitas dores, apesar deles. Recebi alta no dia 3 de Abril e “celebrei-a” com a notícia de que “Eu se fosse a si regressava já a Portugal, para estar com a sua família e os seus amigos...”, assim me aconselhou uma oncologista. Estávamos a 3 ou 4 meses de regressar a Lisboa porque a minha mulher terminava a sua comissão em Berlim. “Mas o que quer dizer com isso? Quanto tempo tenho de vida?”. Ela encolheu os ombros. “3 meses...6...?”, deixei a pergunta no ar. Ela olhava-me fixamente e não respondeu. O seu olhar dizia tudo. O mundo desmoronou-se à minha frente e a minha tristeza “bateu no fundo”.

    A partir desse momento só me restava ter esperança, acreditar no impossível e não desistir. Pensei todo o tempo no Tiago e na Lúcia para me darem força.

    No inicio de Maio comecei o tratamento de quimioterapia e fomos a Lisboa para uma reunião na Fundação Champalimaud. Era perfeitamente possível fazer metade do tratamento em Berlim e continuá-lo em Lisboa, na Champalimaud, asseguraram-me. De volta a Berlim, começaram os preparativos para o regresso a Lisboa com a Lúcia, o Tiago, o nosso gato Kasimir e dezenas de caixotes com todos os nossos bens pessoais e onde não cabiam as memórias lindas de 5 anos em Berlim. O tratamento era semanal e ao final de algumas sessões comecei a sentir as infames náuseas. Em Julho, já em Lisboa, comecei a segunda etapa do tratamento, na Fundação Champalimaud, mudaram-me o “cocktail” anti-enjoo, que foi bem sucedido e terminei o tratamento a meio de Setembro de 2014.

    Fazia exames de rotina de dois em dois meses e em meados de 2016 foram-me detectados micro-nódulos no pulmão direito, com 3mm e 4mm. Fiquei sob observação mais rigorosa e a 9 de Janeiro de 2017 fui operado na Champalimaud para me serem retirados 4 nódulos que estavam no pulmão direito. O nódulo maior tinha 9mm. A operação correu lindamente e ao fim de 3 dias estava em casa, embora com algumas limitações e muitas dores. Em Março comecei o meu 2º tratamento de quimioterapia. Este foi muito mais complicado que o primeiro, desde logo porque na primeira sessão a solução química queimou-me uma veia e tiveram de me colocar um acesso/cateter perto da clavícula, o que me afectou bastante psicologicamente. “Pareço um doente terminal”, pensava quando me via ao espelho. O tratamento terminou em final de Agosto de 2017 e desde então vou regularmente fazer os exames de rotina, cada 3 meses.

    Todo este tempo levei uma vida “normal” – uma normalidade que construímos à nossa medida – como se não tivesse nenhuma doença, mas tomando todas as precauções que me aconselhavam. Religiosamente. Fui sempre bem acompanhado por nutricionistas e o meu homeopata, Dr. João Pais de Faria, para ter uma alimentação o mais cuidada possível (pouca gordura, muitos vegetais, nada de álcool, nada de fritos, muito pouco açúcar, etc..).

    Tenho ainda uns micro-nódulos, que estão estacionários, à excepção de um deles que insiste em aumentar, embora muito lentamente, no pulmão direito. Em Maio de 2018 o meu oncologista, Dr. Carlos Carvalho, sugeriu-me que fizesse uma sessão única de radioterapia para eliminar o nódulo. A sessão foi conduzida pelo Dr. Oriol, a 6 de Junho, e foi um êxito. Não houve efeitos colaterais e fiz ainda algum bodyboard, em Julho, até chegar o momento de mais uma mudança de país, desta feita para a Holanda.

    Continuo a ser seguido na Fundação Champalimaud, onde vou fazer exames de 3 em 3 meses. Nos dias que antecedem os exames sinto-me sempre ansioso, claro. Mas sou um optimista por natureza.

    Acredito que tenho tido muita sorte, que tenho sido muito bem acompanhado, mas acredito também que a forma como reagimos a estas más notícias é essencial para nos defrontarmos com a doença: eu assumi a doença que tenho sem ter medo de falar dela seja com quem for. Não penso nela o tempo todo, convivo com ela mas dedico-me ao que mais gosto, para poder ser feliz, fazer a minha família feliz e desfrutar o tempo que me resta com as pessoas que mais amo.

  • GRACINDA OLIVEIRAGRACINDA OLIVEIRA

    No ano de 1996 comecei a ter uma dor pouco intensa mas incomodativa no lado da mama esquerda. Pensando tratar-se de algum problema cardíaco, fui à médica de família que me passou um eletrocardiograma, o qual indicou que estava tudo bem. Continuei com as mesmas queixas, o que fez com que a médica pedisse para repetir o exame e que devia realizá-lo noutra clínica. Assim fiz e o resultado foi o mesmo. Mandou-me de seguida fazer uma mamografia e ecografia mamária onde se detetou algo suspeito mas pouco visível. Repeti exames passados 6 meses e não tinha aumentado de tamanho mas sim de quantidade, tinha vários pequenos tumores. O resultado foi enviado para o Hospital Garcia de Orta, de onde me chamaram para uma consulta e me informaram que tinha que ser operada. Fui chamada para operação em Fevereiro de 1998, retirados os tumores, foram mandados para análise e quando fui à consulta para tirar os pontos, fui informada que tinha que fazer uma mastectomia radical do lado esquerdo porque tinha um carcinoma invasivo. Fiz 6 tratamentos de quimioterapia injetável e 30 de radioterapia e correu tudo bem.

    Em 2004 tive os mesmos sintomas na mama direita e como já andava a ser seguida desde então, fazia os exames anuais e os resultados eram sempre os mesmos – calcificações. Em 2014, os exames acusaram algo duvidoso junto ao mamilo e fui mandada novamente para o Hospital Garcia de Horta, onde fiz uma ressonância que revelou um carcinoma. Foi-me marcada nova cirurgia em Agosto de 2014 para mais uma mastectomia radical, desta vez na mama direita.

    Em final de 2015 resolvi fazer a reconstrução mamária bilateral com colocação de próteses mamárias. Tirando o facto de ser um processo um pouco moroso porque tive que fazer várias intervenções até a reconstrução estar terminada, sinto-me uma mulher completa na mesma como se nada tivesse acontecido e vivo muito bem com a situação.

    Ter amor próprio, esperança e auto confiança é meio caminho andado para a recuperação.

    Ter o apoio da família, amigos, da comunidade médica e dos profissionais de saúde e encarar a doença com positivismo é essencial para nos ajudar a passar por todo este processo. Sempre fui muito bem tratada pelos clínicos oncológicos e nunca me senti desamparada.

    Existem também Instituições e Grupos de ajuda que nos dão um apoio mais personalizado que falta nos hospitais, e que são como uma 2ª família que está sempre ali para o que precisarmos e que nos recebem com um sorriso nos lábios.

    Aconselho a todas as mulheres a realizaram o auto exame mamário como forma de prevenção primária e sempre que notem alguma alteração, consultar um médico. A prevenção é sempre muito importante, pois quanto mais cedo for detetado mais probabilidade existe de ser combatido com sucesso.

  • JOANA COSTAJOANA COSTA

    A minha estória - “Cancro da mama”

    A 23 de Abril de 2017, com 34 anos, fui tomar o meu banho diário, no qual procedi á habitual palpação mamária. Apesar de não ter antecedentes de cancro de mama na família, algo me levou a ter essa especial atenção durante o banho. Nesse dia, senti algo diferente no peito, um caroço, duro. Estranhei. Tentei não dar demasiada importância, mas não esquecendo que nestes casos, temos que imediatamente fazer exames para despiste de algo grave. Fiz ecografia mamária, que deu resultado inconclusivo. Fiz mamografia, com resultado novamente inconclusivo, a solicitar biopsia para confirmação. Fui encaminhada para o hospital onde, após consultas e pedidos de novos exames, se confirmou tratar de um tumor. Era um cancro de tipo triplo negativo, nível III, com rápida taxa de crescimento. Foi-me explicado o tratamento protocolar: fazer cirurgia ao gânglio-sentinela, iniciar quimioterapia para reduzir o tumor e posteriormente, tumorectomia com preservação da mama. Eu e o marido estivemos durante 3 dias a chorar, a lamentar. Perguntávamos o porquê da doença. Porquê eu? Eu não bebo álcool, café, refrigerantes, tinha uma vida bastante ativa e alimentava-me bem. Sentia-me saudável!

    Iniciei a quimioterapia a 4 de Agosto. Não sabia bem o que me esperava, até porque nunca tinha tido qualquer contacto com doentes oncológicos. Seguiram-se 16 ciclos de quimioterapia. 4 ciclos de 2 em 2 semanas seguidos de 12 ciclos semanais. Durante os 5 meses de tratamento notei que o caroço não diminuía. Fiz os tratamentos até ao fim, tendo descoberto a meio do tempo que o peito tinha outros focos de cancro espalhados e que teria mesmo que ser submetida à mastectomia do peito direito.

    A minha última quimio foi a 28 de Dezembro. Fiz uma festa no final do ano: “que 2018 traga mais saúde e boas notícias” - era esse o meu desejo. No início de Janeiro, em seguimento de uma constipação, comecei a sentir umas “facadas” nas costas. Assumi que tivesse apanhado uma pneumonia ou tivesse feito uma contractura muscular. Fui operada a 30 de Janeiro, fiquei sem o peito, mas não me senti de todo triste. Achei que finamente, a luta tinha chegado ao fim. Como me enganei... As costas começaram de novo a doer, daquelas dores incapacitantes, que me impossibilitavam de mexer um braço, uma perna ou qualquer outra parte do corpo. Fui internada e após exames confirmaram-se metástases ósseas em 7 vértebras e na bacia. Levei com um balde de água fria... ia ter de passar por tudo de novo... fiz 15 sessões de radioterapia e iniciei mais 16 sessões de quimioterapia. A única vantagem: o cabelo não ia cair. Mas em contrapartida, tem sido doloroso, há tratamentos que foram adiados por estar demasiado fraca. Há injeções que tenho que levar que me deixam em pura agonia, mas eu aguento. Tenho sido forte, tenho suportado tudo o que o destino me deu. Tenho tido uma família, um marido e um filho excecionais, amigos e vizinhos que se preocupam verdadeiramente comigo e que ajudam com comida e outros alimentos, tenho uma equipe de médicos que me ajuda em tudo o que precisar e as enfermeiras e auxiliares são uns autênticos anjos. Só me falta um tratamento. Depois disso, não sei como será o meu futuro. Não sei se fico por aqui. Não sei se consegui finamente adormecer as metástases. Sei que estou fisicamente debilitada, incapacitada. Não consigo pegar em pesos, não consigo dar colo ao meu filho, brincar com ele, correr com ele. Qualquer queda que dê pode resultar numa lesão muito grave na coluna, posso ficar paraplégica... o medo é constante, quer seja quando aparece uma dor fora do habitual, quer seja porque faço um esforço maior, ou porque escorrego em qualquer lado. Mudei como pessoa, sim. Conheci muita gente boa e outras assim-assim. Vivo para conviver com os meus amigos. Porque é isso que me anima. Não quero falar na doença, não quero que me perguntem como estou. Quero, pura e simplesmente, que me incluam no seu dia-a-dia, me contem os seus problemas, me façam abstrair da doença, rir despreocupadamente...

  • JOÃO SANTANA LOPESJOÃO SANTANA LOPES

    Tudo começou em Setembro de 2017, após 2 anos sem ir ao médico nem realizar exames de rotina, desloquei-me ao hospital para uma consulta. Levei um grande raspanete, pois com a minha idade as idas ao médico já têm de ser mais regulares. Havia a possibilidade de ter cancro na tiroide, passaram-me para um Endocrinologista e posteriormente para um Oncologista, já com a certeza que tinha cancro na tiroide, fui operado em 4 meses. Avisei apenas os familiares e amigos mais próximos que tinha cancro, embora muito em cima da hora. Felizmente hoje estou curado, agradeço muito o apoio das pessoas mais próximas em especial da minha mulher. Acredito que também foi bastante importante a vontade própria e o pensamento positivo, temos que ter a força de que tudo é ultrapassável por mais dolorosa que seja a notícia. Deixo um conselho bastante importante, façam exames de forma regular, pois a prevenção e o diagnóstico precoce é o melhor tratamento que temos!

    João Santana Lopes

  • JORGE GABRIELJORGE GABRIEL

    "Afirmar-me doente oncológico é um eufemismo. A tempo, e por intuição e sagaz noção do seu ofício, o Dr. Osvaldo Correia insistiu em observar atentamente um sinal que estranhamente havia mudado de configuração e de cor. Em pouco mais de um mês foi detetado o melanoma de dimensão mínima, retirado e nos últimos anos tenho sido acompanhado atentamente, sem novidades desagradáveis.
    Prefiro ocupar este espaço que me dignam com o que tenho aprendido com os doentes, os que maioritariamente têm vencido a guerra ao cancro, a esperança contínua mesmo nos momentos de maior fraqueza com a agonia da dor, o rosto que não reconhecem no espelho e o desespero por provocarem tamanha tristeza entre os familiares e os amigos.
    As linhas nunca serão suficientes para agradecer o denodo da classe médica, as horas dedicadas à investigação, o cumprimento escrupuloso e preocupado para com todos os pacientes das regras cientificas e éticas na salvaguarda da dignidade humana. Não é quantificável este empenho pelo próximo quando repentinamente vemos a linha de meta da vida sem que sigamos o natural desenrolar da nossa existência.
    E o que seria se me esquecesse das famílias, dos amigos, dos pais que vêem os seus filhos perecerem, dos voluntários que complementam em tantos instantes o desespero do silêncio, ou o murro no estômago da sentença fatal?
    Apesar de continuarmos apavorados com a possibilidade de nos diagnosticarem esta terrível doença, os números não enganam, são mais os doentes que se salvam dos que cedo partiram, e muito cedo nos iluminam as noites da saudade."

  • RUY DE CARVALHORUY DE CARVALHO

    Sempre fui mais um homem de palco do que de escrita. Prefiro falar, representar, até porque a escrita é para mim uma arte de grande beleza que me obriga a respeitar com todas as minhas forças. Aprendi, lendo, que a vida dá sempre aquilo que precisamos de aprender, para podermos ultrapassar os desafios que Deus considerou serem os melhores para conseguirmos a coragem contra os maus momentos, as faltas de energia... e as doenças. Todos os dias vivemos situações que nos pedem força, e nem sempre a temos. Todos nós vivemos relações tóxicas com pessoas que conhecemos ou mesmo com familiares, e sem dar por isso, acabamos vergados pelos desgostos, pelos medos e por tudo o que nos torna pequeninos e incapazes de continuar. Foi num desses momentos que pela primeira vez pensei na morte. Todos morremos um dia, é verdade, mas só nesse dia. Devia ser proibido morrer aos poucos. No entanto é por esse estranho caminho que a maioria caminha, como se a vida não lhes tivesse nada para dar, e nada neles precisasse de crescer ou de florescer. Foi nesses dias que decidi não morrer. Que olhei para todas as coisas e percebi que a vida é um fluir permanente... como um rio, como o sol e a lua, e que, se eu fazia parte dessa deriva, então deveria ser aquilo que queria ser, e não o que o meu mal queria que eu fosse. É que a minha vida é um espelho daquilo que tem vibrado no meu coração, pelo que, se há nele uma réstea de amor, é porque foi ali semeado por mim, e isso dava-me o direito de querer ficar bem. Resolvi não desistir! Decidi lutar em nome de tudo o que plantei na vida, e foi esse tudo que me deu forças para matar os meus cancros e para não morrer com eles. A vida nem sempre nos dá muito, eu sei, mas dá sempre o suficiente para lutarmos por ela, mesmo quase sem forças, mesmo até sem esperança, porque ninguém, nem o céu sequer, nos pede para abdicarmos daquilo que foi depositado no nosso coração quando nascemos; o amor pela existência! Somos hoje aquilo que fomos, é verdade, mas amanhã seremos aquilo que formos, e esse caminho, se ainda estiver por trilhar, há que fazê-lo então com a força que nos dá o existirmos aqui e agora, por alguém, sobretudo por nós... por aquilo que somos, ou mais que não seja, por aquilo que temos ainda por fazer.

  • VITOR ESPADINHAVITOR ESPADINHA

    É-me difícil falar disto, porque foram tempos difíceis.
    Lembro-me que comecei a ter muitas dores, ia à casa de banho e nada acontecia. Andei umas duas semanas neste estado bastante difícil de suportar. "Comi alguma coisa que me fez mal"! Acho que é isto que todos os que passaram por isto, pensam.
    Uma noite, a minha mulher levou-me a um hospital (não interessa o nome do hospital, porque a experiência foi muito má.).
    Fizeram-me vários exames e, a resposta foi a mesma que eu tinha pensado: "O senhor comeu qualquer coisa que lhe fez mal!"
    Na mesma noite, eu pensei que ia morrer com dores! A minha mulher telefonou para a CUF da Infanto Santo, explicou pelo telefone, o meu problema e, disseram-lhe:
    O Victor que venha cá imediatamente porque temos hoje de serviço, o gastrenterologista, Dr. Alves Martins. Nem dez minutos levou a observar-me: o "senhor tem que ser operado o mais rapidamente possível!". Fui direcionado para o Dr. Rui Esteves do hospital Santa Maria. Com o prognóstico de Cancro no Colon.
    Cheguei ao Santa Maria, e entrei na sala de operações. Tinha um cancro!
    Devo hoje a vida a estes dois médicos. No outro hospital eu "tinha comido qualquer coisa que me fez mal"!
    O tempo que estive "a dormir" pareceu-me uma eternidade. Quando acordei não me aguentava em pé e devia pesar uns 40 quilos. Mas tive uma grande alegria quando o médico Rui Esteves me entra no quarto e me diz: Victor, você é um homem de grande força. E eu vou dar-lhe uma grande alegria: "Você está curado! Todos os gânglios estão negativos! E consegui juntar as duas pontas do cólon (esta operação tem um nome técnico que nunca me recordo.) Você, no meio desta tragédia, está cheio de sorte."
    Fiz uma quimioterapia leve, de prevenção, durante seis meses, com a supervisão da Dra. Conceição Lourenço, a quem muito também fiquei a dever.
    Depois fui a consultas, primeiro de 3 em 3 meses, depois de 6 em 6, depois uma por ano. No segundo ano, deixei de ir, porque estes médicos precisam de tempo para tratar quem passou o que eu passei (e muito pior do que eu passei).
    Jamais esquecerei estes médicos a quem fiquei a dever a minha vida.
    E tenho muito orgulho em ter um filho médico.


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